.

.
O bandoneon chorou e o soalho desapareceu sob as solas dos sapatos dos milongueros e das sombras dos vestidos das mulheres.
Agarrei a mão de Adelia e fi-la rodar nos meus dedos. Senti o seu perfume espalhar-se ao redor e senti-me feliz, hoje faço de Adelia minha, só minha.
Mas ao libertar-se a sua cintura ficou agarrada nas mãos de um estranho. Não conheço este homem, este não é dos nossos. Tomou Adelia como se a conhecesse, apertou-a junto às ancas dando-lhe a confiança do deslizar para logo a erguer ficando perto, tão perto das ventoinhas. Adelia olhou-o nos olhos e afagou-lhe o pescoço, depois deitou-lhe as unhas à cara morena fazendo o sangue espirrar até lhe sujar o peito. O estranho girou-a, doido, doido, endoidecendo Adelia e afastando os outros pares. A milonga faz-se dele.
Não consigo chegar perto mas arde-me a navalha no bolso, Adelia é minha.
Quando o tocador limpa o suor pingado sobre o fole do bandoneon, o estranho beija as mãos de Adelia e desaparece pelas portas da noite.
Sinto vergonha.
2 comentários:
O My God, I love your blog! :-) Regards from Poland! :-)
Besos
Enviar um comentário